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Ensino médio completo e online: o perfil da violência doméstica no litoral e interior de SP

Levantamento do VTVNews mostra que mulheres em idade ativa seguem como principais alvos; mais da metade das agressões ocorre dentro de casa
Ensino médio completo e online: o perfil da violência doméstica no litoral e interior de SP (Foto: Unsplash)

Os números de violência doméstica carregam, além das estatísticas, os sinais de um alerta que teimam em ser ignorados. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase uma a cada três mulheres sofreu algum episódio de violência doméstica ou sexual na vida. Esse diagnóstico também pode ser observado em São Paulo, onde diversas regiões de cobertura da rede VTV registraram um aumento no número de casos de violência doméstica contra mulheres.

A região da Baixada Santista, por exemplo, teve o maior crescimento proporcional de casos de violência contra a mulher entre janeiro e julho de 2025, com alta de mais de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entretanto, outras áreas de cobertura do VTV também registraram um aumento nos casos de violência.

Os dados levantados pela reportagem do VTVNews, obtidos junto à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), mostram que a Baixada teve mais de 10 mil ocorrências no primeiro semestre deste ano, superando os percentuais — também em crescimento se comparado a 2024 — das regiões de Campinas e Bragantina. Já a região de Piracicaba apresentou queda proporcional nos casos de violência doméstica contra mulheres.

Em números absolutos, a liderança segue com Campinas e Bragantina, que concentram mais de 18 mil casos, seguidas por Piracicaba, com 11 mil registros. A Baixada aparece em terceiro lugar, mas com o avanço proporcional mais acentuado entre as três regiões de cobertura analisadas (confira os dados abaixo).

Principais crimes contra as mulheres

É importante ressaltar as fronteiras legais por de trás dos códigos da lei brasileira. Preliminarmente, especialistas procurados pela redação explicam sobre o processo dessas acusações, bem como seu trâmite. Entende-se que:

  • A violência doméstica diz respeito ao contexto ou à situação em que crime foi registrado.

  • Quando a vítima é uma mulher, pode entrar em vigor a Lei Maria da Penha, que garante medidas protetivas e maior rigor na responsabilização do agressor. Entretanto, nem todo caso de violência doméstica contra a mulher enquadra-se automaticamente na Maria da Penha.

Nesse sentido, o Código Penal prevê agravantes específicos, como o aumento de pena por motivação de gênero ou em crimes praticados sob a justificativa de domínio doméstico, configurando a chamada “qualificadoras relacionadas“. Nesses casos, a ameaça e lesão corporal seguem como os crimes mais frequentes contra mulheres dentro do contexto de violência doméstica, segundo levantamento do jornal. A maior parte das ocorrências de 2025 envolve o crime de:

  • Ameaça, com mais de 11,5 mil registros;
  • Lesão corporal, com mais de 8,5 mil casos;
  • Injúria, somando mais de 8 mil notificações.

Também aparecem perseguição, com 3.686, e vias de fato (contravenção penal, caracterizada por agressões que não deixam lesões corporais), com 1.488 casos

Além do dano físico, especialistas apontam que o arcabouço jurídico brasileiro avançou nas últimas décadas, reconhecendo também as formas psicológica, moral, patrimonial e sexual de agressão.

Perfil etário e educacional das vítimas

Já com relação ao perfil etário e educacional, os dados mostram que o modus operandi ultrapassa barreiras socioeconômicas. De acordo com os dados de 2025, o perfil das vítimas se mantém entre mulheres com idade economicamente ativa, sobretudo nas faixas de 31 a 41 anos, seguidas por aquelas entre 26 e 30 e de 41 a 50 anos. 

Além disso, muitas dessas vítimas foram registradas com ensino médio ou até o superior completo — o que desmonta a ideia de que a instrução protege do ciclo de abusos.

  • Em 2025, quase 46% das vítimas que informaram escolaridade haviam completado o ensino médio, e mais de 17% tinham ensino superior completo. Essa proporção aumentou com relação ao ano anterior, em que o número de vítimas com ensino médio e superior variavam entre 10% e 30% dos casos.

Segundo o advogado criminalista e professor de Direito Penal, Rafael Paiva, o crescimento dos casos de violência contra mulheres com maior escolaridade indica que o problema não se restringe ao nível de instrução das vítimas. Para o especialista, a formação acadêmica pode ampliar a consciência social, mas não funciona como barreira efetiva diante das estruturas machistas ainda arraigadas na sociedade brasileira.

“A violência doméstica e familiar atravessa todas as camadas sociais, culturais e econômicas”, afirma Paiva. Ele avalia que o fenômeno tornou-se mais abrangente, atingindo mulheres de diferentes contextos e evidenciando a necessidade de políticas públicas mais amplas e de um sistema de justiça atento à complexidade dessa problemática.

Além disso, casos de violência contra menores também foram identificados pelo levantamento do VTVNews, correspondendo à menor proporção de vítimas, mas igualmente preocupante. Variando de 5 a 16 anos, foram registrados 1.4 mil casos de violência contra menores nas cidades das regiões de cobertura. Os crimes variam desde vias de fato até exposição sexual online.

Agressões continuam dentro de casa

Recentemente, o VTVNews noticiou o assassinato de Denise Tizo de Oliveira, de 27 anos. Ela estava grávida de 8 meses quando foi morta pelo companheiro em Campinas. Logo após o homicídio, Vinícius Franco de Farias tirou a própria vida.

O local onde os corpos foram encontrados reflete outro aspecto comportamental notado pelas estatísticas de violência, isto é, as ocorrências de dentro da própria casa. Em 2025, por exemplo, foram mais de 26 mil registros de violência em casa, chácaras e apartamentos, além de mais de 11 mil casos em vias públicas.

Crimes digitais, previstos pelo Marco Legal da Internet, também são frequentes. As plataformas online, como aplicativos de mensagem e redes sociais, aparecem como ambientes de violência psicológica e moral, com mais de 1.2 mil ocorrências registradas nas regiões.

Distribuição por região – 2024 (janeiro-julho)

REGIÃONúmero de OcorrênciasTOTAL (Jan-dez)
Campinas e Bragantina16.63129.134
Região de Piracicaba12.36021.098
Baixada Santista9.30916.223

Distribuição por região– 2025 (janeiro-julho)

REGIÃONúmero de Ocorrências% de aumento ou queda (Rel. a 2024)
Campinas e Bragantina18.059+8,58%
Região de Piracicaba11.394-7,81%
Baixada Santista10.668+14,61%
GCM de Bragança Paulista detém acusado de violência doméstica (Foto: SECOM)
O programa GCM Guardiã Maria da Penha tem sido amplamente aderido nas cidades da região (Foto: SECOM)

Subnotificação e medidas protetivas

Ainda que os números notificados sejam alarmantes, a subnotificação ainda impede a real dimensão do problema. Segundo especialistas ouvidos, o crescimento no número de casos não significa que a “sociedade se tornou mais violenta”, mas que as vítimas têm buscado por segurança após terem acesso os canais de denúncias. E nesse cenário de informação, os dados se deparam com as subnotificações, como ressalta Paiva:

“Muitas vítimas sentem-se desprotegidas ou desacreditadas, temendo que a denúncia agrave sua situação”, observa. Ele destaca também falhas no atendimento institucional, como revitimização, lentidão no deferimento de medidas protetivas e carência de delegacias especializadas em determinadas regiões.

Dados da Pesquisa Nacional de 2023 indicam que 7 em cada 10 mulheres que sofreram violência no último ano de 2024 não solicitaram medidas protetivas. Entre as que buscaram ajuda, 529.690 mulheres recorreram ao dispositivo de urgência. O principal entrave ainda é a falta de informação: 68% das entrevistadas afirmaram conhecer pouco sobre o mecanismo.

O índice de subnotificação por região também preocupa: 63% das mulheres da região Sudeste, por exemplo, disseram não ter denunciado as agressões sofridas. No país, cerca de 25,4 milhões de mulheres declararam já ter sido vítimas de violência doméstica e familiar em algum momento.

Tentativas de feminicídios no cálculo

Os dados compilados pela redação não levaram em conta os casos de feminicídio e tentativas de feminicídios, tipificações distintas à violência doméstica, mas tomada como agravante, e quase sempre correlacionadas.

Apesar disso, o noticiário do VTVNews tem sido marcado por casos que escancaram a permanência — e a reincidência — da violência contra mulheres, muitos com desfechos brutais.

Por exemplo, em Mogi Guaçu, uma moradora de 38 anos foi assassinada dentro de casa, gritando por socorro que foi ouvido por vizinhos. Em Campinas, veio a condenação de um feminicídio cometido diante da filha do casal, enquanto em Hortolândia, o brutal assassinato de Nicolly, de 15 anos, culminou na apreensão dos adolescentes suspeitos no interior do Paraná. Somam-se a isso os vídeos chocantes de uma jovem agredida com dezenas de socos dentro de um elevador em Natal e com o agressor indo embora, captando não somente a violência, mas a naturalização do gesto.

Além desses casos noticiados, dados recentes do Instituto Fogo Cruzado trouxeram um panorama geral do Brasil. Ao menos 29 mulheres foram baleadas em crimes de feminicídio ou tentativa de feminicídio com arma de fogo em 2025, nos 57 municípios monitorados pelo Instituto Fogo Cruzado. Os dados, atualizados até a primeira quinzena de agosto, indicam um crescimento de 45% em relação ao mesmo período de 2024. Das vítimas deste ano, 22 morreram — o equivalente a 76% dos casos.

Cada ocorrência, embora isolada no tempo e no espaço, se conecta por um padrão conhecido da violência que se repete, que escala, e que, muitas vezes, poderia ter sido evitada, especialmente dando o exemplo da pena da Justiça e da lei a quem comete tamanha atrocidade.

Como denunciar casos de violência contra a mulher

Em situações de violência doméstica, física, sexual, psicológica ou moral, é fundamental buscar ajuda o quanto antes. Existem diferentes canais de atendimento que funcionam de forma gratuita e sigilosa, oferecendo apoio e acolhimento às vítimas.

Os principais meios para denunciar são:

  • Disque 190 (Polícia Militar)
  •  Disque 180 (Polícia Militar – Central de Atendimento à Mulher)
  •  Disque 181 (Disk Denúncia)
  •  Delegacias de Defesa da Mulher (veja os endereços)
  •  Delegacia Eletrônica da Polícia Civil (acesse aqui)
  •  Atendimento presencial em delegacias de polícia e salas DDM Online (veja lista de endereços aqui)


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Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

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