O golpe do bilhete premiado voltou a ganhar destaque em 2025 após uma série de casos registrados em diferentes regiões do país e a prisão, em Campinas, de um suspeito apontado como integrante de uma organização criminosa especializada nesse tipo de estelionato. Apesar de secular, a prática segue se reinventando e produzindo prejuízos expressivos às vítimas.
Ao longo deste ano, ao menos três ocorrências emblemáticas foram registradas em Estados distintos. Em Goiás, uma vítima perdeu cerca de R$ 250 mil após acreditar que auxiliava uma pessoa humilde a sacar um suposto prêmio de loteria. Em São Paulo, uma idosa entregou aproximadamente R$ 17 mil, entre dinheiro e joias.
No Paraná, outro caso resultou em prejuízo estimado em R$ 200 mil. Os episódios apresentam padrão semelhante e reforçam a capilaridade do golpe.
Operação policial e prisão em Campinas
Em Campinas, a Polícia Civil de São Paulo prendeu em flagrante no começo deste mês, um investigado por integrar um grupo responsável por aplicar o golpe do bilhete premiado em diferentes regiões do Estado. A ação faz parte da Operação Bilhete Premiado (Fabula Impostoris), conduzida pela 3ª Delegacia de Investigações Gerais do DEIC.

O suspeito foi localizado em um hotel da cidade e, segundo a apuração, se preparava para cometer novos crimes utilizando documentos e identidades falsos. Por esse motivo, acabou autuado em flagrante pelo crime de uso de documento falso. As investigações também buscam localizar uma mulher apontada como integrante do esquema, atualmente foragida.
Antes da prisão, equipes policiais cumpriram mandado de busca na residência do casal, na capital paulista, onde encontraram materiais vinculados à fraude. O inquérito que embasou a operação teve início após um golpe registrado em julho de 2025, em Mirandópolis, quando uma idosa foi abordada por dois investigados que afirmavam possuir um bilhete premiado.
De acordo com a investigação, a vítima foi convencida a ajudar no suposto saque sob o argumento de impedimento religioso. Em seguida, foi levada até uma agência bancária, orientada a mentir ao gerente e constrangida a transferir R$ 70 mil via TED para um terceiro envolvido. O cruzamento de imagens de câmeras de segurança, dados de sistemas policiais e registros de ocorrências anteriores permitiu identificar os integrantes do grupo, todos com histórico em estelionatos.
Como funciona o golpe do bilhete premiado?
O golpe do bilhete premiado acontece geralmente na rua, perto de locais movimentados como bancos, feiras ou pontos de ônibus. Um golpista se aproxima dizendo que tem um bilhete premiado, mas que não sabe como sacar o prêmio.
Ele se faz de humilde — diz que não sabe ler ou tem medo de ir ao banco. Logo depois, aparece um comparsa fingindo ser um desconhecido, que confirma a história e convence a vítima de que o bilhete é verdadeiro. O golpista então propõe um “acordo”: oferece parte do prêmio se a vítima ajudar. Mas, para garantir confiança, pede algo em troca — como dinheiro, joias ou o cartão do banco.
A vítima entrega acreditando que vai lucrar. No fim, os golpistas desaparecem e ela percebe que caiu em um golpe. Veja como o crime ocorre na prática:
Quem é mais visado pelos golpistas?
As principais vítimas são:
- Idosos, que confiam com mais facilidade;
- Mulheres sozinhas, principalmente perto de bancos;
- Pessoas apressadas, que não param para pensar;
- Pessoas que estão passando por dificuldades financeiras e encontram ali uma oportunidade.
Como evitar cair nesse tipo de golpe?
Aqui vão dicas simples, mas importantes, especialmente para alertar os familiares mais idosos ou que não conhecem a prática:
- Nunca aceite negócios com estranhos na rua, mesmo que pareçam inofensivos;
- Desconfie de histórias boas demais para ser verdade;
- Não entregue dinheiro, cartões ou joias a desconhecidos;
- Evite acompanhar pessoas estranhas até bancos ou locais isolados;
- Diante de suspeita, procure locais movimentados ou peça ajuda;
- Converse com familiares, especialmente idosos, sobre esse tipo de golpe.
Se você caiu no golpe ou presenciou uma tentativa, denuncie. É possível:
- Registrar boletim de ocorrência na delegacia mais próxima;
- Ligar para o Disque Denúncia 181;
- Em caso de flagrante, acionar a Polícia pelo 190.
Informações como descrição dos suspeitos, veículos e locais ajudam a dar robustez às investigações e a reduzir a reincidência desse crime.
Um golpe antigo, mas em constante atualização
Embora os casos recentes chamem atenção, o golpe do bilhete premiado não é novo. Registros históricos indicam ocorrências já no início do século 20. O acervo do Estado de S. Paulo aponta relatos desde 1900, incluindo uma matéria de 1901 que descreve a atuação policial diante de um “bilhete falso de 25 contos”.
Décadas depois, em 1992, o tema voltou às manchetes com alertas sobre o crescimento da prática. Apesar do tempo, a fraude permanece arraigada e se adapta às circunstâncias, explorando a impalpabilidade da promessa de ganho fácil.
