O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) confirmou que será o candidato apoiado pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para disputar a Presidência da República em 2026, movimento que reorganiza a estratégia da direita e expõe fissuras no próprio campo bolsonarista.
A decisão foi anunciada nesta sexta-feira nas redes sociais, onde o parlamentar afirmou que se coloca “diante de Deus e diante do Brasil para cumprir essa missão”, dizendo assumir a tarefa de dar continuidade ao projeto político da direita.
A escolha do primogênito como sucessor imediato, porém, não encontrou consenso. Setores ligados à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro rejeitaram a sinalização, e dirigentes do PL relataram incômodo com a forma como a indicação foi construída.
O gesto também repercutiu entre aliados antigos do ex-presidente, que enxergam o anúncio como um movimento abrupto em um partido já tensionado por disputas internas.
É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação.
— Flavio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) December 5, 2025
Eu não posso, e não vou, me conformar ao ver o nosso país caminhar por um tempo de… pic.twitter.com/vBvHS7M0hJ
Repercussão política e trajetória do senador
Flávio Bolsonaro é senador e ex-deputado estadual pelo Rio de Janeiro, e sua trajetória política é elogiada por analistas como um “político equilibrado e um apaziguador interno”. Entretanto, é também é marcada por sucessivas controvérsias envolvendo supostas rachadinhas, suspeitas de lavagem de dinheiro, negociações imobiliárias atípicas e participação societária em empreendimentos investigados.
O caso mais emblemático refere-se ao suposto esquema de desvio de parte dos salários de assessores, as “rachadinhas”, de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj.
Queiroz diz ao SBT que movimentações de R$ 1,2 milhão vêm de “negócios próprios”
Em 2018, Fabrício Queiroz afirmou em entrevista ao SBT, que a movimentação de R$ 1,2 milhão identificada pelo Coaf em sua conta ao longo de um ano decorre de atividades comerciais pessoais, afastando qualquer relação com o então deputado estadual Flávio Bolsonaro. É a primeira vez que o ex-assessor comenta publicamente o caso desde que seu nome apareceu no relatório que apontou transações atípicas de funcionários e ex-funcionários da Assembleia Legislativa do Rio.
O documento, elaborado no âmbito da Operação Furna da Onça, identificou depósitos de servidores do gabinete de Flávio e também de familiares de Queiroz que trabalhavam no mesmo gabinete. Entre as transações está o envio de R$ 24 mil para a conta de Michele Bolsonaro, que, segundo o presidente eleito Jair Bolsonaro, corresponde ao pagamento parcial de um empréstimo de R$ 40 mil.
Questionado sobre o tema, Queiroz reforçou a versão: “Nosso presidente já esclareceu, tive um empréstimo de R$ 40 mil, passei dez cheques de R$ 4 mil. Nunca depositei R$ 24 mil”.
Na entrevista, Queiroz disse que só detalhará ao Ministério Público os depósitos feitos por funcionários do gabinete em sua conta bancária. Essa é a principal dúvida que a investigação busca esclarecer e que permaneceu sem resposta no material exibido nesta quarta. Ele negou qualquer repasse de parte dos salários dos assessores ao então deputado. “No nosso gabinete, a palavra lá é: não se fala em dinheiro, não se dá dinheiro. […] Eu não sou laranja. Sou homem trabalhador”, afirmou.
O ex-assessor também disse que Flávio Bolsonaro não tem relação com suas movimentações bancárias. “Acabou minha vida, eu era amigo do cara, o que ele está passando na rua achando que eu tenho negociata com ele, pelo amor de Deus, isso não existe, eu vou provar junto ao MP”, declarou.
Operação Confraria
No mesmo processo, Queiroz também foi investigado por pagar mensalidades escolares das filhas de Flávio, no mesmo período em que operava no gabinete do então deputado estadual.
Ao longo dos anos, diferentes fases da investigação avançaram e recuaram conforme decisões judiciais. Em 2020, o senador chegou a ser denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, mas diversas quebras de sigilo acabaram anuladas por vícios processuais, o que reduziu o alcance das apurações e fragmentou o caso em diferentes instâncias. Flávio sempre negou irregularidades e atribui o episódio a perseguição política.
Interpretações sobre a movimentação financeira do parlamentar também dividiram instituições. A Polícia Federal, no âmbito da Operação Confraria, afastou indícios de lavagem em parte das transações imobiliárias, embora algumas frentes permaneçam em análise.
Decisões do STF e efeitos sobre o caso
Em 2019, o ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu trechos da investigação ao entender que dados sigilosos do antigo Coaf haviam sido utilizados sem autorização judicial. A medida resultou na anulação de provas consideradas essenciais e na inviabilização da denúncia apresentada pelo Ministério Público.
Em fevereiro de 2025, Gilmar Mendes reafirmou o arquivamento do caso ao negar um pedido de reabertura da apuração. Segundo o ministro, os recursos apresentados não demonstraram interesse processual suficiente diante das nulidades já reconhecidas, o que consolidou o esvaziamento jurídico da acusação. Em 2024, o ex-presidente Jair Bolsonaro havia sinalizado apoio ao irmão de Gilmar Mendes na disputa municipal em Diamantino (MT).
A relação entre os Bolsonaro e o ministro voltou ao centro do debate neste ano, após a divulgação de mensagens trocadas entre Jair Bolsonaro e o filho, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos Estados Unidos. Nas conversas, datadas de 27 de junho, Jair orienta: “esqueça qualquer crítica ao Gilmar”. Segundo a Polícia Federal, a referência era ao ministro do STF.
Durante um evento empresarial realizado na zona sul de São Paulo, Gilmar foi questionado sobre a troca de mensagens. Ele negou ter mantido conversas recentes com o ex-presidente, mas afirmou ser procurado por interlocutores e representantes de diversos espectros políticos.