Você almoçou e não foi pouco, mas três horas depois, entre uma reunião e outra, você abre a gaveta, a geladeira, o armário e procura alguma coisa, e você só percebe o movimento quando já está mastigando. Se alguém perguntasse naquele instante se você estava com fome, a resposta honesta seria: não exatamente.
Esse gesto é tão frequente que virou sinônimo de falta do que fazer, mas ele é, na verdade, a expressão de dois sistemas fisiológicos distintos disputando o mesmo comando.
O primeiro é o sistema homeostático. É a fome que aparece quando existe déficit real a ser corrigido. O segundo é o sistema hedônico.
O que causa essa fome?
Esse circuito é ativado por estímulo, expectativa e disponibilidade, mesmo na ausência de necessidade energética. Basta o sinal, a caixa em cima da mesa, o cheiro vindo da copa, a lembrança do que está na gaveta, para ele entrar em atividade antes de qualquer decisão consciente.
Os dois conversam entre si. Um dia mal estruturado do ponto de vista alimentar, portanto, não gera apenas fome, também aumenta a sensibilidade do sistema a estímulos que, em outro contexto, passariam despercebidos.
Normalmente, essa fome acontece a tarde e há um componente circadiano documentado. Porém, é justamente nesse período que se concentram reuniões, prazos, trabalho e exposição a estímulos e é quando a estrutura alimentar do dia, se houve alguma, já se desorganizou, como a distribuição de refeições, composição do que foi ingerido, tempo dedicado a cada uma e grau de exposição a estímulos em um período de vulnerabilidade fisiológica previsível.
É possível ajustar
Quando essa arquitetura é ajustada, o episódio perde força, porque o sistema deixa de operar em estado de alta reatividade. É variável gerenciável, com o mesmo tipo de intencionalidade que você aplica a qualquer processo crítico do seu trabalho.
Existe uma diferença grande entre querer comer e o corpo pedir para comer, essa distinção não é sutil nem subjetiva, ela tem marcadores, horários e mecanismos identificáveis.
Da próxima vez que a gaveta abrir, vale a pergunta: quem pediu isso, você ou o seu dia?