Uma nova fase das investigações sobre o crime organizado no setor de combustíveis colocou empresários, operadores financeiros e empresas de tecnologia financeira na mira das autoridades nesta quinta-feira (28). A Operação Fluxo Oculto, desdobramento da Operação Carbono Oculto, apura lavagem de dinheiro, fraudes fiscais e adulteração de combustíveis supostamente ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, coordena a ação em parceria com a Receita Federal, Agência Nacional do Petróleo (ANP), Secretaria da Fazenda paulista, Procuradoria-Geral do Estado e forças policiais.
Ao todo, as equipes cumprem 55 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Além disso, algumas apurações oficiais apontam 59 diligências simultâneas em cidades e empresas investigadas.
Fintechs funcionariam como “bancos paralelos”
As investigações identificaram seis fintechs suspeitas de integrar o núcleo financeiro da organização criminosa. Segundo o Ministério Público, essas empresas realizavam compensações financeiras entre distribuidoras, postos de combustíveis, empresas ligadas ao esquema e fundos de investimento.
De acordo com os investigadores, as fintechs movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Além disso, o grupo teria usado o sistema para pagar despesas pessoais, investimentos e operadores financeiros ligados ao esquema.
Os investigadores também identificaram o uso de “contas bolsão”. Esse mecanismo concentra e redistribui recursos financeiros para dificultar o rastreamento das operações.
A Receita Federal encontrou ainda depósitos em dinheiro vivo incompatíveis com a atividade formal das instituições investigadas. Uma das fintechs, por exemplo, teria recebido mais de R$ 1 bilhão em espécie entre 2022 e 2024.
As diligências ocorrem em cidades como São Paulo, Barueri, Santos, Sorocaba e São José do Rio Preto. Além disso, as equipes atuam em endereços localizados em regiões empresariais da capital paulista, como Faria Lima e Itaim Bibi.
Investigação aponta uso de empresas de fachada
Segundo o Gaeco, a organização criminosa continuou movimentando milhões mesmo após operações anteriores. Por isso, os investigadores suspeitam que o grupo criou novas empresas e contas digitais para ocultar recursos obtidos com sonegação fiscal e adulteração de combustíveis.
As apurações mostram ainda que diversos postos operavam de forma integrada. O grupo centralizava operações financeiras em poucas contas para dificultar a fiscalização.
Além disso, os investigadores identificaram trocas frequentes de empresas e alterações societárias. O esquema também utilizava “laranjas” para ocultar patrimônio. Entre os nomes usados nas empresas estavam parentes, pessoas em situação de vulnerabilidade social e até presos.
Para o Ministério Público, a organização mantinha uma estrutura altamente profissionalizada. O grupo utilizava operadores financeiros e mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro para manter as atividades.
Entre os investigados apontados como líderes do esquema estão Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, chamado de “Beto Louco”.

Operação investiga desvio de nafta petroquímica
Outra frente da Operação Fluxo Oculto investiga o desvio de nafta petroquímica, derivado de petróleo utilizado pela indústria química. Segundo as apurações, o grupo desviava o produto para adulteração de combustíveis na Grande São Paulo.
De acordo com os investigadores, empresas-fantasma simulavam compras regulares de solventes em diversos estados. No entanto, os envolvidos desviavam os produtos para terminais de armazenamento e misturavam a substância em combustíveis automotivos.
A Receita Federal estima prejuízo de cerca de R$ 200 milhões em tributos sonegados em apenas dois anos.
Além disso, as autoridades investigam o uso de fundos de investimento para ocultar patrimônio e esconder os verdadeiros beneficiários das operações financeiras.
Quatro fundos investigados possuem patrimônio estimado em aproximadamente R$ 205 milhões. Segundo o Ministério Público, o valor cresceu mais de 200% em pouco mais de um ano.
Operação mobiliza diversos órgãos
A operação mobiliza cerca de 135 servidores da Receita Federal, entre auditores e analistas tributários. Além disso, participam integrantes do Ministério Público, Polícia Militar, Polícia Civil e órgãos reguladores.
Segundo os investigadores, a nova etapa busca aprofundar a identificação do sistema financeiro clandestino usado para sustentar atividades do crime organizado no setor de combustíveis.
O Ministério Público afirma ainda que os investigados compartilhavam fintechs, fundos de investimento e mecanismos de lavagem de dinheiro já identificados em fases anteriores da Operação Carbono Oculto.
A Operação Fluxo Oculto segue em andamento nesta quinta-feira (28) nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. As investigações envolvem o Gaeco, Receita Federal, ANP e forças policiais estaduais. As autoridades devem divulgar novas informações após a análise dos materiais apreendidos.