A necessidade de obter uma renda extra se tornou realidade para a maioria dos moradores das grandes cidades brasileiras. Uma pesquisa inédita mostra que 60% dos entrevistados precisaram realizar trabalhos informais ou “bicos” nos últimos 12 meses para fechar o orçamento doméstico.
Os dados fazem parte do levantamento “Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social”, divulgado em 17 de setembro pelo Instituto Cidades Sustentáveis e Ipsos-Ipec, em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen e cofinanciamento da União Europeia. A pesquisa consultou 3.500 pessoas em dez capitais do país: Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Entre as principais atividades informais utilizadas para reforçar a renda familiar, destacam-se os serviços gerais, como limpeza e faxina, reformas, manutenção residencial e jardinagem.
Como ficou a renda dos brasileiros nos últimos 12 meses?
O estudo revela uma oscilação na percepção sobre os ganhos financeiros da população. Enquanto apenas 18% dos entrevistados afirmaram que a renda pessoal aumentou no último ano, 31% relataram perda de rendimento e 45% mantiveram o orçamento estável.
O crescimento da renda concentrou-se principalmente nos grupos de maior poder aquisitivo e nos jovens. As maiores altas foram registradas entre pessoas com renda familiar superior a cinco salários mínimos (28%), jovens de 16 a 24 anos (26%) e integrantes da Classe AB (24%).
Por outro lado, a queda no rendimento afetou de forma mais intensa a população com menor nível de escolaridade. Entre os entrevistados que possuem apenas o Ensino Fundamental, 44% relataram diminuição na renda pessoal nos últimos 12 meses.
Percepção sobre a renda pessoal nos últimos 12 meses
Resposta dos entrevistados ao avaliar se o orçamento pessoal mudou no último ano.
Alimentação e moradia lideram o impacto no orçamento familiar
Quando o assunto é a gestão do orçamento doméstico, os custos básicos continuam pressionando as famílias. A alimentação aparece como o item de maior impacto financeiro para 47% dos entrevistados, figurando no topo das preocupações orçamentárias.
Em segundo lugar surgem as despesas com moradia, apontadas por 27% dos participantes, seguidas pelos gastos com saúde, que somam 11%.
Essa pressão no bolso provocou mudanças diretas na mesa dos brasileiros. Para garantir a alimentação diária, a população adotou estratégias de adaptação de consumo: houve queda na compra de carnes, laticínios e produtos hortifrutigranjeiros, enquanto o consumo de ovos aumentou por ser uma alternativa de menor custo.
Itens que mais impactam o orçamento familiar (1º lugar)
Despesas apontadas como as de maior peso financeiro no dia a dia da casa.
Percepção sobre fome e pobreza nas capitais
A pesquisa também consultou a opinião dos moradores sobre a situação social nos municípios. A maioria dos entrevistados declarou perceber um aumento nos índices de fome e pobreza na cidade onde mora, embora a proporção seja menor do que a registrada na edição anterior do levantamento.
Escolaridade cresce, mas avanço financeiro não acompanha
Um dos pontos centrais da análise de mobilidade social indica que o aumento da escolaridade não se traduz, na mesma velocidade, em melhoria das condições financeiras.
Cerca de 73% dos entrevistados possuem um nível de escolaridade superior ao de seus pais. Contudo, apenas 46% conseguiram obter uma renda maior do que a geração anterior quando tinha a mesma idade.
Ao analisar o histórico dos últimos cinco anos, 45% dos participantes afirmam ter aumentado a renda, 44% melhoraram a escolaridade e 41% registraram avanços nas condições de moradia. Em contrapartida, 35% relataram redução de rendimentos e 24% enfrentaram piora nas condições habitacionais no mesmo período.
“A educação continua sendo uma das principais ferramentas para ampliar oportunidades, e o avanço entre gerações é muito significativo. Entretanto, os dados mostram que estudar mais, por si só, não garante que essa trajetória se converta automaticamente em aumento de renda e melhores condições de vida”, avalia Vitor Hugo Neia, diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen.
Mobilidade intergeracional: Escolaridade vs. Renda
Avanço dos entrevistados em comparação aos seus pais quando tinham a mesma idade.
Metodologia da pesquisa
A Pesquisa Viver nas Cidades ouviu internautas com 16 anos ou mais, das classes A, B, C, D e E, residentes há pelo menos dois anos nas capitais pesquisadas. O trabalho de campo sobre mobilidade social ocorreu em dezembro de 2025, e os demais blocos temáticos foram aplicados em julho de 2026.
A margem de erro total da amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Para as análises específicas por capital, a margem de erro varia entre 4 e 6 pontos percentuais.




