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‘Ele não vai começar te dando um soco’: as cinco caras da violência contra a mulher

Controle, humilhação, coerção sexual e retenção de dinheiro também são formas de violência contra a mulher
Caminhante em rua com grafite em fundo com três mulheres pintadas e frase no muro: “Sou Maria e vou com as outras”, tema de violência contra a mulher.
Selo Lei Maria da Penha 20 Anos


Atenção: a matéria a seguir traz relatos sensíveis de agressão e abuso sexual e pode ocasionar gatilhos sobre estupro, violência contra a mulher e violência doméstica. Caso você seja vítima deste tipo de violência, ou conheça alguém que passe ou já passou por isso, procure ajuda e denuncie. Ligue para o 180.

Ana, nome fictício escolhido para preservar a identidade da fonte, tem 26 anos e lembra que a violência começou com explosões de raiva, silêncio usado como castigo e tentativas de controle. As agressões físicas vieram pouco depois de Ana passar a morar com o companheiro, em 2021.

Ela relembra que, em uma das primeiras situações, o companheiro jogou objetos no chão, bateu o portão com força e parou de atender suas ligações porque ela demonstrou incômodo com o comportamento dele.

“Ele me punia ficando em silêncio. Sumia, não respondia e não atendia.”

— Ana

Naquele momento, ela ainda não sabia, mas a violência já havia começado. Com o tempo, as humilhações, o medo e o isolamento cresceram. O que parecia apenas um relacionamento conturbado passou a limitar sua rotina, suas escolhas e sua autonomia.

Somente depois de deixar o relacionamento, ela conseguiu identificar que a violência havia começado muito antes das agressões físicas. 

A experiência de Ana não é isolada. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) reconhece cinco formas de violência doméstica contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Muitas vezes, elas aparecem juntas e começam antes do primeiro tapa.

Desde o último sábado (1), o VTV News está publicando uma série de sete matérias para mostrar o que mudou, o que ainda precisa mudar e, principalmente, relatos de vítimas que usaram a lei para quebrar o ciclo de violência dentro de casa. São mulheres que, literalmente, sobreviveram para contar suas histórias.

Quais são os cinco tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha?

A Lei Maria da Penha reconhece cinco tipos de violência doméstica contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A divisão mostra que o abuso pode atingir o corpo, a saúde emocional, a liberdade sexual, os bens e a reputação da vítima.

Essas formas de violência podem acontecer separadas ou ao mesmo tempo. O infográfico produzido pelo VTV News resume cada uma delas. 

Infográfico Linear – Tipos de Violência (Lei Maria da Penha)

TIPOS DE VIOLÊNCIA

Estão previstos cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial − Capítulo II, art. 7º, incisos I, II, III, IV e V.

1. Violência física

Entendida como qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal da mulher.

Exemplos:
  • Espancamento
  • Atirar objetos, sacudir e apertar os braços
  • Estrangulamento ou sufocamento
  • Lesões com objetos cortantes ou perfurantes
  • Ferimentos causados por queimaduras ou armas de fogo
  • Tortura

2. Violência Psicológica

É considerada qualquer conduta que: cause dano emocional e diminuição da autoestima; prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher; ou vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.

Exemplos:
  • Ameaças
  • Constrangimento
  • Humilhação
  • Manipulação
  • Isolamento (proibir de estudar e viajar ou de falar com amigos e parentes)
  • Vigilância constante
  • Perseguição contumaz
  • Insultos
  • Chantagem
  • Exploração
  • Limitação do direito de ir e vir
  • Ridicularização
  • Tirar a liberdade de crença
  • Distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em dúvida sobre a sua memória e sanidade (gaslighting)

3. Violência Sexual

Trata-se de qualquer conduta que constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força.

Exemplos:
  • Estupro
  • Obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causam desconforto ou repulsa
  • Impedir o uso de métodos contraceptivos ou forçar a mulher a abortar
  • Forçar matrimônio, gravidez ou prostituição por meio de coação, chantagem, suborno ou manipulação
  • Limitar ou anular o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher

4. Violência Patrimonial

Entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades.

Exemplos:
  • Controlar o dinheiro
  • Deixar de pagar pensão alimentícia
  • Destruição de documentos pessoais
  • Furto, extorsão ou dano
  • Estelionato
  • Privar de bens, valores ou recursos econômicos
  • Causar danos propositais a objetos da mulher ou dos quais ela goste

5. Violência Moral

É considerada qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.

Exemplos:
  • Acusar a mulher de traição
  • Emitir juízos morais sobre a conduta
  • Fazer críticas mentirosas
  • Expor a vida íntima
  • Rebaixar a mulher por meio de xingamentos que incidem sobre a sua índole
  • Desvalorizar a vítima pelo seu modo de se vestir

Em entrevista ao VTV News, a advogada e voluntária no Grupo de Apoio à Mulher (GRAM), Fabiana Kuele, observa que as formas psicológica e patrimonial estão entre as mais difíceis de reconhecer porque não deixam marcas visíveis.

Em muitos casos, atitudes de posse são confundidas com cuidado, enquanto o controle financeiro parece uma obrigação do relacionamento.

“Essas violências costumam se instalar de forma gradual e silenciosa, corroendo a autonomia e a autoestima da mulher até que ela passe a acreditar que aquele comportamento é normal”.

Em entrevista ao VTV News, a advogada e voluntária no Grupo de Apoio à Mulher (GRAM), Fabiana Kuele, observa que as formas psicológica e patrimonial estão entre as mais difíceis de reconhecer porque não deixam marcas visíveis.
A advogada especialista em direitos humanos e das mulheres Daniele Akamine destaca que todas as categorias envolvem a retirada de algum direito. O agressor pode controlar ações e crenças, limitar escolhas sobre o corpo, reter bens ou atacar a imagem da vítima.

A advogada especialista em direitos humanos e das mulheres Daniele Akamine destaca que todas as categorias envolvem a retirada de algum direito. O agressor pode controlar ações e crenças, limitar escolhas sobre o corpo, reter bens ou atacar a imagem da vítima.

Embora a classificação ajude a identificar cada situação, os tipos de violência raramente aparecem sozinhos. Humilhações podem acompanhar o controle financeiro. A coerção sexual pode vir seguida de silêncio, ameaças ou culpa. A agressão física também costuma fazer parte de um processo iniciado anteriormente.

Violência psicológica

Imagem com casal na cama em clima tenso, com a mulher deitada e o homem ao fundo, sugerindo ameaça e alerta sobre violência contra a mulher e suas diferentes formas
Foto: Canva

A violência psicológica costuma começar de forma silenciosa e repetitiva. Em vez de um episódio isolado, ela aparece em pequenas atitudes que reduzem gradualmente a liberdade e a confiança da mulher.

Ciúme excessivo, controle do celular, críticas constantes, chantagens e tentativas de afastar a vítima de pessoas próximas estão entre os sinais. Outro alerta surge quando a mulher passa a calcular cada palavra ou decisão por medo da reação do companheiro.

Foi assim com Rebeca, nome fictício usado para preservar a identidade da fonte. No início, ela diz que o comportamento parecia uma tentativa de proteção. Depois, o controle passou a alcançar diferentes áreas de sua vida.

“Não lembro ao certo quando percebi que estava sofrendo violência, no início era tudo muito sutil, como uma forma de controle com grosseria, depois o bombardeio de amor dizendo que era para me proteger.”

— Rebeca

O companheiro passou a interferir no que ela dizia, na forma como se comportava e nas roupas que usava. Até suas preferências musicais viraram motivo para controle.

“Possessão, controle do que eu falava, me comportava, como me vestia. Até as músicas que eu gostava não podia ouvir, porque ele não gostava.”

— Rebeca

A psicóloga Ana Flávia Spòsito Onofri explica que o abuso costuma avançar aos poucos. Gritos, desqualificações e invasões de privacidade se repetem até que a vítima passe a tratar essas atitudes como parte normal da relação.

“Nenhum caso de violência contra mulher começa com um tapa na cara, ele começa com um grito de um lado e a submissão de outro”.

A psicóloga Ana Flávia Spòsito Onofri explica que o abuso costuma avançar aos poucos. Gritos, desqualificações e invasões de privacidade se repetem até que a vítima passe a tratar essas atitudes como parte normal da relação.

Em alguns casos, o agressor também distorce conversas, nega fatos ou faz a mulher duvidar da própria memória. Essa manipulação é conhecida como gaslighting e pode levar a vítima a acreditar que exagera, interpreta tudo errado ou provoca os conflitos.

A psicóloga Vanessa Albuquerque ressalta que o controle costuma alternar com pedidos de desculpas, promessas de mudança e demonstrações de afeto. Essa sequência cria esperança de melhora e dificulta o reconhecimento do abuso.

A psicóloga Vanessa Albuquerque ressalta que o controle costuma alternar com pedidos de desculpas, promessas de mudança e demonstrações de afeto. Essa sequência cria esperança de melhora e dificulta o reconhecimento do abuso.

Com o tempo, a vítima pode perder autoestima, afastar-se da rede de apoio e encontrar dificuldade até para tomar decisões simples. As consequências incluem medo constante, ansiedade, culpa, vergonha e a sensação de não conseguir viver sem o agressor.

Quando a violência psicológica se torna crime?

A violência psicológica contra a mulher é crime quando uma conduta provoca dano emocional, prejudica o desenvolvimento ou busca controlar ações, comportamentos, crenças e decisões. A legislação alcança práticas como ameaças, constrangimentos, humilhações, manipulação, isolamento e vigilância constante.

O reconhecimento específico desse crime fortaleceu a resposta a situações que não deixam hematomas. Antes, muitas dessas condutas acabavam tratadas apenas como discussões conjugais, apesar dos efeitos profundos sobre a saúde mental e a autonomia da vítima.

A advogada Daniele Akamine explica que um dos principais sinais aparece quando a mulher começa a duvidar repetidamente da própria percepção. Isso pode ocorrer porque o agressor nega fatos, muda versões ou transfere para ela a responsabilidade pelo conflito.

“Outro sinal é o encolhimento da vida social e o estado de alerta constante, a sensação de estar sempre calculando o humor do parceiro antes de agir”.

A violência psicológica não depende de um único episódio. O contexto da relação, a repetição das condutas e o impacto causado à vítima ajudam a demonstrar o abuso.

Mensagens, áudios, vídeos, testemunhos e registros de atendimento podem contribuir para mostrar o que aconteceu. A ausência de lesões físicas não elimina o direito de buscar proteção.

A advogada Fabiana Kuele reforça que a mulher não precisa esperar uma agressão mais grave para procurar ajuda.

“A legislação permite que elas procurem proteção desde os primeiros sinais de violência, como ameaças, perseguições, humilhações, controle excessivo, isolamento, destruição de bens ou controle do dinheiro.”

Segundo o Ministério das Mulheres, o Ligue 180 recebeu mais de 100 mil denúncias relacionadas à violência psicológica em 2024. O número mostra como o abuso emocional faz parte da rotina de muitas mulheres, embora ainda seja difícil de reconhecer e denunciar.

Violência física

Ilustração com um homem levantando o punho e uma mulher ao fundo com as mãos no rosto, criando um alerta sobre violência contra a mulher e suas formas iniciais. Texto: “Ele não vai começar te dando um soco”: as cinco caras da violência contra a mulher.
Foto: Canva

A violência física é qualquer ação que atinja a integridade ou a saúde corporal da mulher. Ela não se limita a socos e espancamentos. Empurrões, chacoalhões, tapas, chutes, apertões, queimaduras e tentativas de atingir a vítima com objetos também entram nessa categoria.

Quebrar portas, bater em paredes ou arremessar objetos pode aparecer antes do ataque direto. Além de intimidar, essas atitudes mostram que o agressor usa a força para impor medo e controlar o ambiente.

No caso de Ana, a violência física surgiu depois de um período marcado por controle, explosões de raiva e punições pelo silêncio. Em um dos episódios, o companheiro a jogou no chão e começou a agredi-la.

Eu comecei a gritar, pedindo socorro: ‘ele vai me matar’

— Ana

O relato também mostra que a agressão física não costuma surgir de forma isolada. Antes dela, Ana já enfrentava ameaças e violência psicológica. A escalada transformou o medo em uma presença constante dentro da própria casa.

A advogada Fabiana Kuele explica que a violência física envolve qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal da mulher. Mesmo sem ferimentos aparentes, a vítima pode procurar a rede de proteção.

Violência sexual

Imagem com alerta sobre violência contra a mulher, com uma mulher em primeiro plano olhando para um homem em cena doméstica; texto “Ele não vai começar te dando um soco” e “as cinco caras da violência contra a mulher”.
Foto: Magnific

A violência sexual ocorre quando a mulher perde a liberdade de decidir sobre o próprio corpo. Forçar relações ou práticas indesejadas, impedir o uso de contraceptivos e pressionar decisões sobre gravidez são alguns exemplos.

O consentimento precisa existir em todas as relações, inclusive no casamento ou em um namoro. O silêncio, o medo ou a submissão não significam concordância.

Daniele Akamine, advogada, explica que um dos principais sinais aparece quando a mulher não pode dizer “não” sem enfrentar consequências.

“Na violência sexual, o sinal central é a ausência de escolha real, quando dizer não gera consequência, seja bronca, silêncio prolongado ou culpa colocada sobre ela”.

Bárbara, nome fictício escolhido para preservar a identidade da fonte, conheceu ainda muito jovem o peso da manipulação. O agressor usava a culpa e o medo para impedir que ela contasse o que acontecia.

“Você não pode contar para a sua mãe, porque senão ela vai ficar muito triste com você. Isso vai separar a nossa família. Tem que ser segredo nosso.”

— Bárbara

A fala mostra como a violência sexual pode vir acompanhada de pressão psicológica. O agressor tenta transferir à vítima a responsabilidade pelas consequências, mantendo o abuso em silêncio.

Fabiana Kuele, advogada, reforça que essa violência vai além do estupro. Ela também inclui obrigar a mulher a participar ou presenciar práticas sexuais sem consentimento e limitar seus direitos sexuais e reprodutivos.

Violência patrimonial

Mulher com as mãos no rosto sentada à mesa, enquanto um homem atrás da porta observa com expressão séria; imagem sobre violência contra a mulher e alerta às cinco caras da violência.
Foto: Magnific

A violência patrimonial acontece quando o agressor controla, retém, destrói ou toma bens e recursos da mulher. O objetivo costuma ser reduzir sua autonomia e dificultar o rompimento da relação.

Impedir que ela trabalhe, controlar todo o salário, esconder cartões, reter documentos e vender bens sem autorização são exemplos. Quebrar objetos pessoais ou instrumentos de trabalho também pode configurar esse tipo de violência.

Mesmo quando a mulher tem renda própria, o abuso pode aparecer na obrigação de justificar cada gasto ou na falta de acesso às contas do casal.

A advogada Daniele Akamine explica que o sinal central é a perda da autonomia financeira. Em alguns casos, decisões importantes são tomadas sem que a mulher seja consultada, apesar de ela também contribuir com a renda.

Para Rebeca, conquistar independência financeira foi uma das partes mais importantes do recomeço.

“O que mais me ajudou foi receber ajuda psicológica, apoio emocional das minhas amigas e conquistar minha independência financeira.”

— Rebeca

A dependência econômica pode manter a vítima no relacionamento por medo de não conseguir pagar moradia, alimentação ou despesas dos filhos. Por isso, o controle do dinheiro não deve ser tratado apenas como uma questão particular do casal.

A advogada Fabiana Kuele afirma que essa violência muitas vezes busca tornar a mulher financeiramente dependente e diminuir suas possibilidades de sair da relação.

Violência moral

Imagem ilustrativa de violência contra a mulher: mulher com o rosto escondido entre as mãos, em ambiente doméstico, enquanto outra pessoa aponta e faz gesto de ameaça, reforçando a mensagem “Ele não vai começar te dando um soco”.
Foto: Canva

A violência moral ocorre quando o agressor ataca a honra, a imagem ou a reputação da mulher. Ela pode aparecer em xingamentos, acusações falsas, boatos e exposições feitas para humilhar ou desacreditar a vítima.

Também ocorre quando o agressor apresenta uma versão distorcida da mulher para familiares, amigos ou colegas. Aos poucos, ela pode perder apoio e passar a ser vista como responsável pelos conflitos.

A advogada Daniele Akamine explica que esse tipo de violência envolve calúnia, difamação e injúria. Embora os termos sejam jurídicos, todos representam ataques à dignidade e à reputação da vítima.

A violência moral costuma caminhar junto com a psicológica. As ofensas constantes enfraquecem a autoestima, enquanto as acusações podem afastar pessoas que ajudariam a mulher a reconhecer o abuso.

Ana relata que passou a conviver com humilhações e manipulações antes mesmo de compreender a gravidade do relacionamento.

“Ele me massacrava psicologicamente.”

— Ana

Quando essas agressões se repetem, a mulher pode começar a acreditar na imagem criada pelo agressor. Também pode sentir vergonha de procurar ajuda por medo de não ser ouvida ou de enfrentar novos julgamentos.

Violência digital

A violência digital não é uma sexta categoria prevista pela Lei Maria da Penha. Ela é uma forma de praticar violências psicológica, moral, sexual ou patrimonial por meio da internet e de aparelhos eletrônicos.

  • Exigir senhas, controlar mensagens, rastrear a localização, invadir contas e criar perfis falsos são exemplos. A exposição de fotos íntimas sem consentimento também pode atingir a liberdade sexual, a imagem e a saúde emocional da vítima.

O ambiente digital amplia o alcance do abuso. Uma publicação pode permanecer disponível, alcançar muitas pessoas e continuar causando danos mesmo depois do fim do relacionamento.

A psicóloga Ana Flávia Spòsito Onofri aponta que o controle das redes sociais e do celular aparece entre as práticas que reduzem a autonomia da mulher.

A advogada Daniele Akamine destaca que a proteção legal passou a acompanhar essas novas formas de violência, inclusive com mecanismos para retirar imagens íntimas compartilhadas sem autorização.

O agressor também pode usar ferramentas digitais para perseguir, ameaçar ou vigiar a mulher. Por isso, mensagens, áudios, e-mails e capturas de tela podem ajudar a registrar o que aconteceu.

  • Em casos de violência digital, a orientação é preservar as provas com data e horário, denunciar o conteúdo à plataforma e buscar apoio pelos canais oficiais. Desde junho de 2026, o Ligue 180 passou a reforçar esse tipo de orientação durante os atendimentos.
Violentometro - violência contra a mulher - Lei Maria da Penha
Crédito: TJBA / Divulgação

A violência também aparece na saúde

A violência doméstica pode causar efeitos que permanecem mesmo quando não há ferimentos visíveis. Ansiedade, insônia, dores frequentes e alterações no apetite estão entre os sinais que podem levar uma mulher a procurar atendimento médico.

Muitas vítimas chegam aos serviços de saúde várias vezes, mas não relacionam os sintomas ao que vivem dentro de casa. Vergonha, medo e dificuldade para reconhecer a violência também impedem que elas contem espontaneamente o que está acontecendo.

A ginecologista Débora Britto, responsável pelo Programa Superando Barreiras, explica que queixas persistentes sem uma causa clara podem acender um alerta. Dores de cabeça, dores musculares, ansiedade e distúrbios do sono estão entre os sintomas observados.

“Os serviços de saúde acabam sendo, para muitas dessas mulheres, o primeiro e mais recorrente ponto de contato onde a violência poderia ser identificada”.

Outros sinais podem aparecer durante a própria consulta. O companheiro pode insistir em acompanhar todo o atendimento, responder pela paciente ou interferir nas decisões sobre exames e tratamentos.

As consequências também chegam à saúde ginecológica, sexual e reprodutiva. Dor pélvica, sangramentos, infecções sexualmente transmissíveis e gravidez não planejada estão entre os possíveis impactos.

A ginecologista e sexóloga pelo Hospital da Mulher, Renata Pereira acrescenta que algumas mulheres desenvolvem dor durante as relações, perda da libido e dificuldade para estabelecer novos vínculos afetivos.

“A violência contra a mulher não deixa apenas marcas visíveis. Ela pode comprometer profundamente a saúde física, emocional, ginecológica, sexual e reprodutiva”.

A ginecologista e sexóloga pelo Hospital da Mulher, Renata Pereira acrescenta que algumas mulheres desenvolvem dor durante as relações, perda da libido e dificuldade para estabelecer novos vínculos afetivos.

Por isso, o serviço de saúde não deve apenas tratar lesões. A equipe precisa escutar sem julgamento, preservar a privacidade da mulher e oferecer orientações sobre atendimento psicológico, assistência social e proteção jurídica.

Mesmo quando a agressão aconteceu há algum tempo, a mulher ainda pode buscar uma Unidade Básica de Saúde, uma Unidade de Pronto Atendimento ou um hospital. O cuidado não perde importância porque a violência não ocorreu no mesmo dia.

Por que não basta dizer “é só ir embora?”

Sair de um relacionamento violento não depende apenas de uma decisão individual. Medo, dependência financeira, filhos, ameaças e falta de apoio podem manter a vítima presa a uma situação que coloca sua vida em risco.

Em muitos casos, o agressor também afasta a mulher da família e dos amigos. Sem uma rede de confiança, ela pode não ter onde morar, com quem deixar os filhos ou como se sustentar após o rompimento.

A violência ainda enfraquece a autoestima e a capacidade de tomar decisões. Depois de ouvir repetidamente que não conseguirá viver sozinha, a mulher pode passar a acreditar que não existe saída.

O ciclo da violência também dificulta esse processo. Após períodos de tensão e agressão, o agressor pode pedir desculpas, demonstrar carinho e prometer que mudará. A fase de aparente tranquilidade alimenta a esperança de que o relacionamento possa melhorar.

A psicóloga Ana Flávia Spòsito Onofri explica que reconhecer a violência não acontece de uma hora para outra.

“Reconhecer a violência não é apenas compreender racionalmente o que acontece, é um processo emocional que exige tempo e acolhimento”.

A psicóloga Vanessa Albuquerque defende que a sociedade precisa mudar a forma como olha para essas mulheres. Em vez de perguntar por que a vítima não foi embora, é necessário compreender quais obstáculos a impedem de sair.

“É importante abandonar a pergunta ‘Por que ela não sai?’ e substituí-la por ‘O que a impede de sair?’”.

Para Ana, apresentada no início dessa matéria, o medo cresceu à medida que as agressões se tornaram mais graves. A violência já controlava sua rotina e suas escolhas, tornando o rompimento cada vez mais difícil.

Rebeca também precisou reconstruir laços que o agressor tentou interromper. O apoio psicológico, a reaproximação das amigas e a independência financeira ajudaram no processo.

“O processo é difícil, eu ainda estou me recuperando.”

— Rebeca

Pressionar a vítima ou culpá-la por continuar na relação pode aumentar o isolamento. Familiares e amigos ajudam mais quando acreditam no relato, respeitam o tempo da mulher e oferecem apoio para que ela conheça as opções disponíveis.

Não é preciso esperar uma agressão física para pedir ajuda

A mulher pode procurar orientação e proteção desde os primeiros sinais de violência. Ameaças, perseguições, humilhações, controle financeiro e isolamento já justificam a busca por atendimento.

Também não é necessário ter um ferimento, uma testemunha ou um laudo médico para pedir uma medida protetiva. O relato da vítima pode fundamentar a primeira análise do risco, enquanto outras provas podem fortalecer o processo depois.

Mensagens, áudios, vídeos e registros de ameaças devem ser preservados sempre que isso puder ser feito com segurança. A mulher também pode anotar datas e procurar atendimento na rede de saúde, assistência social ou orientação jurídica.

A advogada Daniele Akamine ressalta que o acolhimento multidisciplinar não depende do registro imediato de um boletim de ocorrência.

“A mulher tem direito a atendimento multidisciplinar, psicológico, social e orientação jurídica, mesmo sem registrar boletim de ocorrência”.

A Defensoria Pública pode orientar quem não tem condições de contratar um advogado. Delegacias especializadas, centros de referência, serviços de saúde e canais como o Ligue 180 também integram a rede de atendimento.

Para a VTV News, a defensora pública, Milena Osiowy destaca que a Lei Maria da Penha ampliou essa proteção ao reunir assistência jurídica gratuita, atendimento social e suporte médico e psicológico.

“Tudo isso para garantir a essas mulheres vítimas de violência doméstica direitos, dignidade e especialmente a vida”.

A Patrulha Maria da Penha também acompanha vítimas e fiscaliza o cumprimento de medidas protetivas em diferentes cidades. Em alguns locais, ferramentas como aplicativos, tornozeleiras eletrônicas e dispositivos de emergência ajudam a reforçar a segurança.

Cecília, nome fictício escolhido para preservar a identidade da fonte, tem 55 anos e encontrou esse apoio depois de viver dois relacionamentos violentos. Na experiência mais recente, procurou ajuda assim que reconheceu os primeiros sinais. Para ela, procurar ajuda representou a possibilidade de recuperar a própria vida.

“Acionar a Lei Maria da Penha me deu esperança de recomeçar sem agressões psicológicas e físicas. Aos poucos, estou conseguindo recuperar minha dignidade e paz.”

— Cecília

Reconhecer a violência é o primeiro passo para interrompê-la

Os cinco tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha mostram que uma mulher não precisa apresentar hematomas para estar em risco. Controle, humilhação, coerção sexual, ataques à reputação e retenção de dinheiro também exigem atenção.

Segundo o Conselho Nacional de Justiça, a Justiça brasileira concedeu 621.202 medidas protetivas, uma média de 70 por hora. O número revela a dimensão da procura por proteção e mostra que milhares de mulheres recorrem diariamente aos mecanismos criados pela lei.

Ainda assim, reconhecer o abuso é o primeiro passo para buscar proteção. A partir do pedido de ajuda, a mulher pode contar com medidas criadas para aumentar sua segurança, afastar o agressor e impedir novas aproximações. 

Amanhã (dia 4), a série especial do VTV News explica como funcionam as medidas protetivas, quem pode solicitá-las e o que acontece quando o agressor descumpre uma ordem judicial. Os conteúdos serão publicados sempre às 11h.

Serviço

Para denunciar casos de violência contra a mulher:

  • Disque 190 (Polícia Militar)
  • Disque 180: Central de Atendimento à Mulher, para orientações e denúncias
  • Disque 181 (Disk Denúncia)
  • Delegacias de Defesa da Mulher (veja os endereços)
  • Delegacia Eletrônica da Polícia Civil (acesse aqui)
  • Atendimento presencial em delegacias de polícia e salas DDM Online (veja lista de endereços aqui)


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Autores

  • Bruna Santos

    Jornalista e redatora com experiência em produção de conteúdo digital. Atuou em portais de notícia, rádio e agências, escrevendo para áreas como finanças, saúde, direito e bem-estar. Pós-graduada em Comunicação e Marketing, se especializou em produção de conteúdo informativo para sites.

  • Luana Gasparetto

    Jornalista e radialista, com experiência em produção de conteúdo multiplataforma, elaboração de pautas, entrevistas e cobertura jornalística, com foco em informação de interesse público, comunicação digital e jornalismo investigativo. É autora do livro-reportagem “Borboletas de Concreto: desvelando as marcas deixadas nos corpos de ex-detentas e suas metamorfoses” e pós-graduanda em Gestão de Rádio e Mídias Audiovisuais.

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