O Alzheimer pode atingir 5,7 milhões de brasileiros até 2050, segundo projeções citadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Alzheimer’s Disease International (ADI).
O Dia Mundial e Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer, celebrado em 21 de setembro, reforça a discussão sobre os fatores que podem aumentar o risco da doença e os cuidados que ajudam a preservar a saúde do cérebro.
Embora idade, histórico familiar e genética tenham relação com o desenvolvimento da doença, outros fatores associados ao risco podem ser modificados ao longo da vida.
Alimentação, atividade física, sono e controle de problemas como diabetes, hipertensão e colesterol estão entre eles.
Em entrevista à VTV News, a nutricionista Nicolle Albanezi explica que a prevenção deve ser entendida como uma estratégia de redução de riscos, e não como uma garantia de que uma pessoa terá ou não Alzheimer.
Quais fatores podem aumentar o risco de Alzheimer?
O risco de Alzheimer é resultado de diferentes fatores acumulados ao longo da vida. Alguns não podem ser alterados, como idade, genética e histórico familiar.
Já outros permitem intervenção. Segundo Nicolle, entre os fatores modificáveis estão:
- Hipertensão;
- Colesterol alterado;
- Diabetes e obesidade;
- Tabagismo;
- Consumo excessivo de álcool;
- Sedentarismo;
- Isolamento social;
- Perda auditiva ou visual não tratada;
- Depressão;
- Traumatismos cranianos;
- Exposição à poluição.
A alimentação também participa desse processo porque interfere na saúde cardiovascular, no controle da glicose, no peso e em processos inflamatórios do organismo.
“Não existe garantia de que alguém vá ou não desenvolver Alzheimer, mas existe uma série de fatores que podem ser identificados, acompanhados e melhorados ao longo do tempo”, explica a nutricionista.
Alimentação pode ajudar a proteger a saúde do cérebro?
A alimentação faz parte dos cuidados com a saúde cerebral, mas nenhum alimento isolado consegue prevenir o Alzheimer.
De acordo com a especialista, o mais importante é observar o padrão alimentar mantido ao longo dos anos. Verduras, legumes, frutas, feijões, grãos integrais, azeite, castanhas e peixes fornecem fibras, vitaminas, minerais, antioxidantes e gorduras de boa qualidade.
Esse padrão também ajuda no controle da glicose, da pressão arterial e do colesterol. Por isso, modelos alimentares como as dietas Mediterrânea e MIND são estudados em pesquisas sobre saúde cerebral.
A nutricionista alerta, porém, para promessas de alimentos, dietas ou suplementos apresentados como capazes de evitar a doença.
“Não existe um alimento, nutriente ou suplemento capaz de prevenir sozinho o Alzheimer.”
Ômega 3, vitaminas do complexo B e vitamina E, por exemplo, cumprem funções importantes no organismo. Isso não significa, segundo Nicolle, que a suplementação sem indicação tenha efeito preventivo contra a doença.
Atividade física e sono também fazem diferença?
Atividade física e sono adequado também estão relacionados à manutenção da saúde do cérebro.
O exercício ajuda na circulação, na pressão arterial, na sensibilidade à insulina e na qualidade do sono. Além disso, estimula mecanismos ligados à aprendizagem, à memória e à formação de novas conexões no cérebro.
Durante o sono profundo, por sua vez, o cérebro consolida memórias e intensifica processos relacionados à eliminação de resíduos do metabolismo cerebral.
Problemas persistentes de sono também podem afetar glicemia, pressão arterial, inflamação e saúde vascular. Por isso, esses cuidados precisam ser analisados em conjunto.

Como diabetes, hipertensão e colesterol afetam a saúde cerebral?
Manter diabetes, hipertensão e colesterol sob controle também faz parte dos cuidados com o cérebro.
Segundo a nutricionista, quando essas condições permanecem descontroladas durante anos, podem favorecer alterações nos vasos sanguíneos, resistência à insulina, inflamação e estresse oxidativo.
“Cuidar da saúde metabólica também é cuidar do cérebro”, resume Nicolle.
Isso reforça a importância de acompanhamento regular, principalmente para pessoas que já apresentam fatores de risco cardiovasculares ou metabólicos.
O que é nutrição de precisão e qual a relação com Alzheimer?
A nutrição de precisão busca personalizar a alimentação a partir das características e necessidades de cada pessoa.
Além da alimentação, a avaliação pode considerar história clínica, estilo de vida, exames laboratoriais e, quando há indicação, recursos como testes genéticos, metabolômica e análise da microbiota intestinal.
Um dos exemplos citados pela nutricionista é o gene APOE, associado a maior risco de Alzheimer em determinadas variações. A presença de uma predisposição, no entanto, não significa que a pessoa obrigatoriamente desenvolverá a doença.
“A Nutrição de Precisão não prevê quem terá Alzheimer. Ela ajuda a enxergar com mais clareza onde estão as vulnerabilidades de cada pessoa e onde existe espaço real para intervenção.”
A estratégia pode apontar, por exemplo, que uma pessoa precisa priorizar o controle da glicemia, enquanto outra necessita ajustar a qualidade das gorduras consumidas ou corrigir alguma deficiência nutricional.
Suplementos podem prevenir Alzheimer?
Não há suplemento que garanta a prevenção do Alzheimer.
A suplementação pode fazer parte do acompanhamento quando existe deficiência, necessidade aumentada ou indicação específica. O problema está no consumo indiscriminado ou na promessa de que determinada cápsula impediria o desenvolvimento da doença.
O mesmo cuidado vale para dietas divulgadas como “anti-Alzheimer”.
“Quando a promessa é simples demais para uma doença tão complexa, já é um bom motivo para desconfiar”, afirma Nicolle.
A doença possui diferentes fatores associados, o que torna importante considerar alimentação, atividade física, sono, saúde metabólica e outros hábitos de forma conjunta.
Quais cuidados são importantes após o diagnóstico de Alzheimer?
Para quem já recebeu o diagnóstico, os cuidados nutricionais passam a ter outro objetivo. A prioridade é preservar força, autonomia, conforto e qualidade de vida.
A perda de peso e de massa muscular pode ocorrer durante a progressão da doença. O paciente também pode perder o apetite, esquecer de comer, apresentar mudanças no paladar ou desenvolver dificuldades para mastigar e engolir.
Por isso, familiares e profissionais precisam acompanhar peso, massa muscular, ingestão de alimentos e hidratação.
Também é importante garantir quantidades adequadas de energia e proteínas. Quando a ingestão cai, podem aumentar os riscos de fraqueza, quedas, infecções, hospitalizações e perda de independência.
A alimentação, contudo, não deve ser vista apenas como uma meta nutricional.
“Comer também é prazer, rotina e vínculo. Em uma pessoa com Alzheimer, preservar o interesse pela comida e tornar as refeições agradáveis pode ser tão importante quanto atingir uma meta nutricional perfeita”, afirma a especialista.
Assim, além do acompanhamento médico, os cuidados com alimentação e estilo de vida podem contribuir para a saúde cerebral antes do diagnóstico e ajudar na manutenção da qualidade de vida de quem já convive com o Alzheimer.




